Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

mesmo sítio de sempre.

mesmo sítio de sempre.

...

Já passaram três meses desde o último post e esse prazo, de que falei, em pouco mais de um mês chega ao fim. 

Foram três meses incríveis e, em certa maneira, inacreditáveis. Continua a ser tudo muito verdade aquilo que escrevi, do prazo e não sei quê. Mas já passaram mais três meses e hoje a relação é bastante mais estável. Continuo ou continuamos, no caso, sem se quer pensar em manter uma relação na distância, eu não acredito minimamente nisso. Mas acredito que o prazo se pode estender, também porque tentarei que a minha vida rume nesse sentido. E também porque isto tudo tem sido tão inacreditável, inimaginável e verdadeiro, que eu sei que um dia mais tarde nos iremos encontrar por coincidência ou não. Eu não gosto de dizer isto porque acham sempre que é uma estupidez, mas é mesmo isso que eu sinto neste momento, não é nenhuma certeza absoluta, é apenas o que eu sinto, que ainda nos vamos encontrar e que teremos todo o tempo que Lisboa não nos deu.

Tem acontecido exatamente o contrário daquilo que sempre me acontece no amor. Não me apetece escrever sobre isso nem aqui nem em lado nenhum (a não ser para a pessoa diretamente e isso faço-o bastante), não me apetece dizer o que neste tempo essa pessoa já me ensinou e aquilo que eu já aprendi de mim neste tempo. Tem sido tanta merda (boa) que nem me cabe no peito, nem em lado nenhum. Não quero partilhar nas redes, não me apetece partilhar com o mundo e eu não me ando a esconder de ninguém. Sabe quem tem de saber, os amigos mais próximos, a família (não a minha, por enquanto) e quem partilha os nossos espaços diariamente. 

Enfim. Eu tentei voltar aqui muitas vezes e escrever sobre isso, mas simplesmente eu não tenho vontade. Mas tenho estado muito feliz como estou sempre, talvez mais ainda agora. Sempre disse que se vier alguém seria para acrescentar, porque eu bem já estou sozinha, obrigada.

E obrigada a esta pessoa incrível e é só. Por fazer com que o mundo seja ainda mais bonito e o mais bonito é termos consciência disso e de que o mundo continua bonito sem nós.

Eu acredito no prazo.

Na vida quase tudo tem um fim. O amor é aquilo que nos permite imaginar um sempre, na maioria dos casos não é para sempre, mas um dia pensámos que seria. Eu pensava que era isso que o tornava mágico, e talvez seja. A crença no eterno, ainda que com a consciência do efémero. 

É por isso que não sei se deixa de ser paixão por sabermos, à priori, que a isto está associado um curto prazo. Ou talvez por isso passe a ser mais paixão, não sei.

A vida tem-me demonstrado, ultimamente, que o tempo é mais curto do que aquilo que imaginei. Que três horas podem passar em dez minutos. Que o hoje é o dia perfeito para tudo, não importa a meteorologia nem os compromissos de amanhã. Que eu tenho de fazer o melhor guacamole da minha vida, porque não sei se vou ter oportunidade de fazer-lhe outro. Que eu tenho de dizer aquilo que tenho para dizer agora mesmo e querer ouvir e saber tudo agora mesmo, porque o relógio não abranda se a decisão for pouco a pouco. Que não há espaço para tristeza nem para dúvidas e se houver é partilhado, para que a cabeça não remoa e com isso se desperdicem minutos.

Eu tenho-me questionado se não seriamos mais felizes e mais plenos se soubessemos o dia exato da nossa partida. Talvez isso nos obrigasse a fazer hoje, a viver hoje.

Aquilo que eu tenho vivido, ultimamente, é do mais verdadeiro que já existiu na minha vida. Eu não sabia como era ser assim feliz com alguém. Mas porque sabemos, desde o início, que só temos estes meses. E nada mais. Que isto tem um prazo curto de validade, mas nem por isso deixa de ser mais feliz, e a intensidade com que vivemos isto é muito maior do que se vivessemos na crença de um para sempre.

Eu vou-me certificar que serão meses inesquecíveis. Vou-me certificar que nunca iremos ter um sempre. E que neste curto tempo nada fique por viver. 

mesmo sítio de sempre.

Às vezes penso em apagar este blog, não porque me fartei de escrever mas porque aquilo que é importante ou que me apetece dizer acabo por fazê-lo nas músicas, já. Também cresci no entretanto e já não sinto tanta necessidade de explodir através de palavras para aqui aquilo que me vai acontecendo. 

Estive a ler o que escrevi aqui ao longo dos anos. Ainda continuo a ser impulsiva mas já não tanto.

Às vezes penso em apagar este blog mas isto tem muito do que passei na vida, muitas das conclusões a que cheguei, muito daquilo que sou e, às vezes, tenho pena de já não ser essa pessoa impulsiva que sentia a necessidade de escrever aqui aquilo que sentia. Porque já não posso acompanhar o meu crescimento e relembrar os momentos que passei de forma tão fiel e exata.

Eu tenho um sentimento por isto, porque é uma parte da minha vida e isso faz-me mantê-lo ativo ainda que com pouca atividade. Nem que seja só para dizer que estou viva, bem e feliz. Tenho muito carinho por aquilo que aqui fui escrevendo, mesmo que me arrependa do tanto que me expûs e mesmo que às vezes, ao ler uma ou outra coisa, sinta vergonha por alguma coisa que tenha dito, e mesmo que às vezes nem eu tenha paciência para ler aquilo que escrevi - que aborrecida que era/sou!!

Deste curto 2018 já tenho tanto que guardar, para contar e tanta merda em rascunho que não me vejo a postar. O tempo não para nunca, as metas alcançam-se constantemente e constantemente novas aparecem. E outras merdas que nem são metas, é puro usufruto. Se eu aprendi alguma coisa na vida é a deixar rolar. Tudo dá certo no fim, sempre. O que acaba bem e o que acaba mal também. 

Mas eu às vezes curtia escrever como escrevia aqui. Escrever mais e talvez melhor. E a falta de tempo não é desculpa, nem se trata de motivação. As merdas que eu escrevia aqui eu hoje ligo a uns quantos amigos para contar, ou combino um jantar ou simplesmente deixo-me estar. 

E porque perdi o fim à meada. Porque mais de metade das pessoas que nomeava com uma letra já não estão e para as que agora estão, aqui não escrevi ainda nenhuma palavra. E porque já fiz tanta coisa que não escrevi que não fazia sentido começar agora. E eu estava a dizer que o tempo não para nunca. E que o meu relógio não anda mais depressa que o de ninguém, mas nem por isso deixa de andar depressa.

Também estava a dizer que tenho pena de não escrever tanto neste blog, mas depois passa. Que sempre disse aqui e na vida que queria mudar o mundo onde passava. E durante tanto tempo só queria mas não fiz nada. E agora faço mais do que falava e do que falo. O mundo por onde eu passo, com quem partilho, às vezes, nada mais que espaço. Mas isso já é muito e ainda não o suficiente pra sentir cansaço. 

Mas sem cor-de-rosa. No outro dia estavam a dizer que às vezes me devia esforçar mais, porque uma ação minha pode ter consequências num grupo. Também concordo com isso, mas não se podem confundir as causas. Porque há espaços e espaços e no mesmo sítio de sempre só há espaço para quem sabe que falha.

Também estava a dizer que às vezes penso em apagar este blog, mas depois passa.

Porque sou o mesmo sítio de sempre. 

Fica, 2017.

Eu gosto sempre de fazer retrospetivas do ano que se está a findar. Já há semanas que ando a escrever e a apagar este texto, 2017 tem uma vida para contar. Todos os anos, no final de cada ano digo “este foi o melhor ano da minha vida!”. Ou tenho memória curta ou realmente os anos se estão sucessivamente a superar. Ou então é estúpido o valor que damos a isto do novo ano, no fundo só voltamos a janeiro, porque tudo permanece igual. Hoje passei o dia a estudar para um teste que tenho dia 5. As coisas ficam exatamente no lugar. Talvez a minha vida seja só feliz, e os anos não importem. Normalmente costumo fazer um resumo dos grandes momentos do ano porque gosto de os relembrar. Li o texto do ano passado e, de facto, tive momentos que não vou esquecer e que recordei, de tempos a tempos, em 2017. Eu dou por mim a pensar que nem gosto tanto assim desta coisa de passar para o ano seguinte, com tudo o que está associado a isso, aquela ideia de renovação, de superação, a expetativa que lhe colocamos. Mas a minha vida tem sido tão boa que eu não me importava que 2016 ou 2017 tivessem durado pra sempre. Só tenho medo que haja um momento que possa quebrar este fluxo de anos ou vida feliz. 2017 foi o melhor ano da minha vida, tal como 2016. Tive momentos que guardarei sempre, outros que não mas que contribuíram de igual forma para que possa afirmar isso. Na verdade eu nem quero 2018, eu estou bem assim, mas já que tem de ser janeiro outra vez só peço que pró ano também não queira 2019, e assim sucessivamente. É a tal ideia de estar tão feliz que parece que aumenta a probabilidade de acontecer algo horrível. Pela primeira vez na vida não sinto necessidade de escrever “os momentos”, “os acontecimentos”, talvez porque muitas coisas estejam ainda a acontecer, ou talvez porque as coisas sejam tão reais que nem faça sentido colocá-las em palavras, talvez as palavras nem fossem suficientes. Há duas semanas tive um acidente de carro e posso afirmar que nunca chorei tanto na minha vida, por momentos pensei que tivesse estragado o meu ano, mas se há coisa mais renovável e transformador que o ano, são os dias. E isso nós podemos fazer sempre, sem datar, sem esperar. E já que 2017 não pode ser pra sempre, espero que algumas das pessoas ue eu conheci este ano sejam, que aquilo que eu alcancei também o seja. E de todos os “como é que eu te posso agradecer?” que eu recebi este ano, que se saiba que a única forma de agradecer é ficar. E de todos os “como é que eu te posso agradecer?” que eu proferi este ano, que eu não me esqueça que só se agradece ficando.

O não querer ter filhos.

A maternidade parece surgir como sentença para quem nasce mulher. Não está legislado que toda a mulher tem de ter filhos, mas a sociedade incumbe-nos esse "dever".

Como referi na anterior publicação, em 2015 o papa Franscisco disse que as pessoas que não querem ter filhos são egoístas; portanto, como se a maternidade não fosse uma opção e, aí, as pessoas pudessem escolher se querem ou não optar por ela, não sendo categorizadas, estigmatizadas ou discriminadas em função da sua escolha.

A liberdade individual da mulher é ilusória e ela não se reflete somente na questão da maternidade. Falo na escolha do que vestir, do que gostar, do que dizer, do que fazer. O "maria-rapaz", o "machona", o "com essa roupa, ela pôs-se a jeito", o "não queres ser mãe? Vais-te arrepender, quando fores velha vais ficar sozinha" e até o "maricas" ou o "que menina!", que apesar de serem comentários dirigidos a rapazes, aparecem quando se julga que a masculinade de um homem está a ser colocada em causa por qualquer ato que ele tenha tomado, o que o destitui de "homem-macho" e o atira para uma outra categoria - à partida uma à qual estejam associados certos comportamentos mais sensíveis ou emocionais que não cabem ainda, na conceção social de homem; comportamentos esses que não lhes são permitidos o que, aliás, coloca em causa também a liberdade individual de um homem, condicionando-o (afinal um homem não chora, não é?).

Estes comentários, estas categorias, rótulos, estereótipos, estigmas é aquilo a que eu chamo de pressão social. São pessoas com comportamentos ou características que não estão associadas àquilo que é suposto ser, à normalidade - porque se presume e assume que existe uma. 

O medo do estigma, da discriminação, do fazer parte do outro, pressiona as pessoas para agirem e serem aquilo que é permitido socialmente e que está dentro do padrão de normalidade. E esse medo condiciona a ação das pessoas, leva-as a fazerem e a serem coisas que não querem, com as quais não se identificam, que não as refletem, com receio de serem excluídas socialmente.

Esta pressão é subtil mas é tácita; existe, preexiste, está lá sempre mesmo quando não damos por ela.

O ser mãe é talvez a maior pressão que recai sobre as mulheres. Surge como obrigação social antes de opção. Como se toda a mulher nascesse com predisposição para a maternidade, como se fosse uma característica intrínseca e necessária ao ser mulher. Como para se ser mulher se tenha de ser mãe.

Esta pressão social para a maternidade, ao limitar as opções da mulher, leva muitas mulheres a concretizarem essa tarefa (precisamente por medo da exclusão e discriminação) e traz fenómenos como o arrependimento materno, algo que não me debruçarei aqui (pelo menos para já).

Um dos meus objetivos a nível académico é dissociar a mulher do ser mãe, trazer o debate para o espaço público e combater esta pressão que se impõe às mulheres, à qual nós tanto lutamos com o nosso relógio-biológico, esperando que o tempo não passe tão depressa ou que, pelo menos, a vontade ou a oportunidade de ser mãe chegue mais rápido.

O meu objetivo não é baixar ainda mais a nossa taxa de natalidade - que por si só já é uma das mais baixas da Europa - o que pretendo é ofecerer-nos, às mulheres, a possibilidade de escolhermos livremente o nosso caminho e, caso esse caminho passe pela não-maternidade, oferecer-nos a possibilidade de percorrermos esse caminho sem termos de passar pelos olhares, comentários e disparos dos outros.

O meu objetivo é, sobretudo, mostrar que há, efetivamente, outro caminho. E que esse caminho não é menos feliz que o outro, nem o destino é menos benéfico por uma pessoa não ter tido filhos; porque há outros planos, outras perspetivas, outras formas de viver a vida e, acima de tudo, outros percursos que não passem pela maternidade.

O meu objetivo é, ainda, lutar para que as mulheres não se sintam na obrigação de serem mães. Evitar que as pessoas que não querem ser mães o sejam, porque muito mais do que a não-maternidade, isso sim, é um infortúnio perpétuo.

Se eu pudesse pedir alguma coisa a quem leu este texto, peço que se conhecerem mulheres em idade fértil e em contexto de conjugalidade que não equacionem ser mães, que me escrevam em baixo. Obrigada.

 

 

o problema está nas perguntas.

"Então e namorado?", "Quando é que sai esse casamento?!", "Não achas que já está na hora de ter filhos?!".

Isto não é só a conversa da treta das tias nos jantares de família. Não é só o previsível. É mais do que um respirar fundo. E mais do que uma voz interior a dizer-nos que eles não fazem por mal.

É pressão social, uma coisa à qual eu também chamo de prisão. Porquê se não tem grades e não nos confina a um espaço?

Porque nos condiciona, nos limita e nos confina ao espaço de uma possibilidade, quando existem tantas outras que podemos seguir.

Um dia, voltei à minha escola básica e estava lá à espera que me entregassem uns papéis. Entretanto comecei a falar com um miúdo (praí de 7 anos) que estava a brincar e, às tantas, perguntei-lhe se ele tinha namorada - aquela coisa estúpida que toda a gente pergunta. O meu espanto foi que ele respondeu com a maior naturalidade: "Não. Tenho namorado".

Não preciso de dizer que me senti estúpida e ridícula mas, mais do que isso, senti-me mal por estar a limitar a opção do miúdo, mesmo que inconscientemente. Assumi que ele tinha de ter namorada porque é rapaz, e nem me lembrei da possibilidade de ele poder (também) gostar de rapazes.

A partir desse dia aprendi a colocar a pergunta de outra forma: "Namoras?" ou "Então e namoros?"

É incrível como uma simples pergunta pode condicionar tanto, e o mesmo acontece com a questão da maternidade.

A maternidade é, sem dúvida, uma das maiores pressões sociais existentes na sociedade. A pressão para a mulher ter filhos é enormíssima, como se as mulheres tivessem uma predisposição natural para a maternidade. Como se as mulheres tivessem todas de gostar de ser mães ou de ter de ser mães. Aliás, como se as mulheres pudessem ser mães.

O Papa Francisco, em 2015, disse que as mulheres que não querem ter filhos são egoístas. Como se o único propósito da existência da mulher fosse procriar ou como se a maternidade fosse uma obrigação moral.

E depois quando uma pessoa assume que não quer ter filhos toda a gente acha que sabe o que é melhor para os outros: "Se não tiveres vais-te arrepender!", "Não queres ter filhos? Sabes que vais ficar sozinha quando fores velha?".

Quando as pessoas não pensam que existem casos de arrependimento materno. Pessoas que, apesar de amarem os seus filhos, detestam o papel de mãe, não se reveem nele e não são felizes naquela situação. Isto não quer dizer que não queiram saber dos filhos, quer apenas dizer que a escolha que eles fizeram vai pesar-lhes para o resto da vida, um sentimento de profundo desconsolo e de perpétua infelicidade, não só porque terão de lidar com as consequências de ter filhos a vida inteira - por cuidarem deles e depois, em muitos casos, cuidarem ainda dos netos - mas também por sentirem que a vida lhes fugiu; que os seus planos e os seus objetivos foram adiados em função de algo para o qual sentem que não as representa - a maternidade.

E as pessoas não são aberrações por isso. Por não quererem casar, por não quererem uma vida conjugal ou por não quererem ter filhos. As pessoas não têm de querer todas o mesmo. 

E é por isso que às vezes o casamento, as uniões conjugais, os filhos surgem da necessidade de se fugir à pressão, de fugir às perguntas, de fazer parte daqui e deixar de fazer parte dos "outros". 

As perguntas das tias, de todos nós e de todos os outros são coação, são opressão e aprisionam as pessoas, às vezes tanto que elas para fugir a essa presão prendem-se noutras coisas.

Eu nunca disse que não ia ter filhos, que nao me ia relacionar com um homem ou com uma mulher eu só gostava que a sociedade não me condicionasse e não questionasse a minha liberdade individual.

Eu só não me quero prender para fugir a outra prisão. Eu gostava mesmo era que não fizessem perguntas.

A galinha mais triste do mundo.

Os meus pais têm cada vez mais animais na sua quinta. Cães, gato, pássaros, coelhos, galinhas...

As nossas cadelas foram as primeiras aquisições, ainda nem vivíamos aqui quando duas delas já faziam parte das nossas vidas, a terceira e última já nasceu aqui. Tivemos receio que elas não aceitassem outros animais ou que, pelo menos, não gostassem muito da ideia inicialmente. São boas surpresas quando vemos as cadelas a quererem brincar com as galinhas e choraram por as verem confinadas ao espaço que o meu pai lhes construiu.

Os cães talvez se consigam habituar a outros animais, mas as galinhas não.

Há um mês atrás os meus pais compraram 5 galinhas poedeiras e este fim de semana decidiram comprar mais uma. O meu coração incha quando percebo que as galinhas que já lá estavam odeiam aquela pequena que foi colocada no espaço delas.

É a galinha mais triste do mundo, sempre sentada num cantinho da capoeira, com o olhar triste e distante. Quando se levanta para ir beber água ou para comer as outras vêm atrás dela e bicam-na. E ela, sozinha, deixa-se bicar. É triste e impotente, mais pequena, mais fraca e mais frágil. Tudo isso até podia ser suportável e superável se não estivesse sozinha. 

Não sei se ela própria consegue pensar na tristeza que é a sua vida, mas eu sinto-me triste ao vê-la e a pensar nela, quase choro. 

Aquela velha expressão "quanto mais pessoas conheço mais gosto de animais" não se aplica minimamente. As pessoas dizem isso porque não conhecem os animais, o mundo deles também sabe ser cruel. Só nós, com a racionalidade que temos, é que poderíamos fazer diferente. E muitas vezes não fazemos.

Eu não posso fazer com que o grupo aceite a galinha mais triste do mundo mas posso fazer isso quando no lugar da galinha se tem uma pessoa. Podemos todos fazer isso. Talvez assim houvessem menos pessoas mais tristes do mundo.

o melhor momento da minha vida.

Foi quando a minha maior inspiração, a minha maior referência, exemplo tomou conhecimento do meu trabalho, apoiou, gostou, partilhou e teceu palavras tão bonitas.

Sei que da vida levamos pouco mais do que os rostos que nos rodeiam e os segundos, minutos, micromomentos de felicidade pura que vamos vivenciando. São os momentos que levamos para sempre, que jamais esqueceremos. E este foi um deles.

E não foi bom apenas por aquilo que me proporcionou diretamente mas também pela vontade e a motivação que me causou. Já passou uma semana e eu sinto que o meu depósito está cheio de combustível, estou cheia de energia e de vontade para trabalhar.

Este ano, quando decidi lutar pelo meu sonho nunca pensei que me pudesse sentir tão embrenhada nisto.

Depois do ano fantástico que tive na faculdade e de ter acabado o semestre com boas notas, este verão vou dedicar 100% ao meu projecto.

É preciso trabalho, é preciso chatear as pessoas e pressioná-las para fazerem as coisas que queres ver feitas, é preciso chegar à frente, procurar muito mas é giro como tudo se vai construindo dia-a-dia, passo a passo, como as ideias vão surgindo e como se vão concretizando. Quando encontro um beat que cai perfeito na letra, ou quando encontro um beat que faz sair uma letra na hora, procurar produtores, gráficas, pedir catálogos, orçamentos, procurar artistas para me fazerem a capa, dar ideias para o c.d, pensar em guiões de videoclip, roupa para vídeo, melhor forma de interpretar a música, back vocals, acrescentar ou retirar notas, palavras e tons, o nome da música (que normalmente é a última coisa), etc etc etc.

Todas estas pequenas coisas contam no fim e eu quero chegar lá com o sentimento de maior satisfação.

A semana passada tive o melhor momento da minha vida e eu quero muito que não seja o único. É trabalhar.

 

Quem é que se culpa agora?

Estou triste como há muito não estava.

Saí de Lisboa ontem por volta das 17h com rumo a Setúbal para ver um concerto. Fui eu a conduzir, no meu carrinho antigo sem ar condicionado. Parei 2 vezes no caminho porque não aguentava o calor, o sol, o ar quente. 

O concerto foi numa praia. Era meia noite e estavam 33º, a chover. Apanhei chuva o concerto todo, o que serviu para aliviar um pouco do calor que se sentia.

Cheguei ao carro às 2h da manhã e foi quando liguei os dados móveis que soube da notícia. 

Na altura haviam 24 mortes confirmadas. "Fodasse" - disse para o meu amigo. "Nós viemos divertir-nos aqui para um concerto e aqui tão perto, neste país, estão a morrer pessoas. Podiamos ter sido nós neste carro."

Foi um concerto bom demais. Ia deitar-me a pensar nele, inspirada por ele mas isto mudou tudo. Fez-me lembrar o ano passado, quando estava no Super Bock Super Rock e recebi a notícia de um atentado em Nice.

Como é que é agora?

Não temos ninguém a quem culpar disto.

Morreram 61 pessoas até ao momento e, ao contrário do que acontece em atentados, nós não temos uma pessoa a quem apontar o dedo, um grupo, uma entidade. Nada.

Não tenho capacidade para agradecer ao universo, a Deus ou a quem for o facto de eu não estar ali, nem lá estar ninguém que eu conheço. Não consigo. Não estavam os meus, mas estavam os meus dos outros. Que não merecem mais nem menos, simplesmente não merecem. Não podia ter acontecido.

Eu não me consigo conformar sequer com o facto de não podermos culpar ninguém. Mas afinal a culpa não tem de ser sempre de alguém. As coisas acontecem mesmo. Porque a natureza tem mais poder que nós, para nos lembrarmos que não a podemos controlar por muito que tentemos. 

Dói pra caralho. Eu choro e sofro, comovo-me com as imagens, notícias, testemunhos. De tudo o que podia arder, morreram 61 pessoas. Não foi por doença, não foi por má alimentação, não foi por fumarem, não foi por beberem e conduzir, não foi pelo sal a mais que metem na comida, não foi por violência, não foi por atritos nem por um gajo com ideias radicais. Foi por uma merda de um incêndio que nem sequer foi posto por ninguém. Foi azar? Pessoas no sítio errado à hora errada?

É só dor. Apenas isso.

E o ser humano que tem sempre a necessidade de culpar alguém, eu hoje percebo. É difícil de aceitar isto, é difícil de ver as imagens, os números e pensar que isto aconteceu por culpa de ninguém. Não apontamos o dedo a nada hoje. Choramos todos, sofremos e oramos pelo bem estar de quem perdeu tudo. De quem perdeu os mais que tudo.

Vamos ser melhores uns para os outros, vamos aproveitar a vida porque ela é curta, porque não há muito que possamos fazer.

Lamentar e continuar a vida. Aproveitar por quem não pode mais fazê-lo, aproveitar porque quem sabe amanhã não sejamos nós a estar no sítio errado à hora errada.

 

Vale a pena sonhar.

Há precisamente um ano atrás estava numa azáfama, a fazer de tudo para conseguir entrar no curso que queria e na faculdade que queria. Muita luta e muito sonho. Meses depois entrei precisamente onde queria. Com as expectativas elevadíssimas o curso e faculdade ainda me conseguiram surpreender mais. Um ano depois a azáfama é ainda maior. As coisas que tenho para fazer parece não terem fim. Desde as 9h até às 23h naquele espaço. De segunda a domingo. Levantar-me e estudar o que gosto, ir para um sítio que adoro cheio de pessoas fantásticas, ter aulas com pessoas fantásticas... Não tem preço. Nunca estive tão feliz. Nunca fui tão feliz. Sonhei, concretizei. Vale a pena sonhar porque vale a passar por tudo isto, vale a pena ser feliz.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D