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mesmo sítio de sempre.

mesmo sítio de sempre.

O não querer ter filhos.

A maternidade parece surgir como sentença para quem nasce mulher. Não está legislado que toda a mulher tem de ter filhos, mas a sociedade incumbe-nos esse "dever".

Como referi na anterior publicação, em 2015 o papa Franscisco disse que as pessoas que não querem ter filhos são egoístas; portanto, como se a maternidade não fosse uma opção e, aí, as pessoas pudessem escolher se querem ou não optar por ela, não sendo categorizadas, estigmatizadas ou discriminadas em função da sua escolha.

A liberdade individual da mulher é ilusória e ela não se reflete somente na questão da maternidade. Falo na escolha do que vestir, do que gostar, do que dizer, do que fazer. O "maria-rapaz", o "machona", o "com essa roupa, ela pôs-se a jeito", o "não queres ser mãe? Vais-te arrepender, quando fores velha vais ficar sozinha" e até o "maricas" ou o "que menina!", que apesar de serem comentários dirigidos a rapazes, aparecem quando se julga que a masculinade de um homem está a ser colocada em causa por qualquer ato que ele tenha tomado, o que o destitui de "homem-macho" e o atira para uma outra categoria - à partida uma à qual estejam associados certos comportamentos mais sensíveis ou emocionais que não cabem ainda, na conceção social de homem; comportamentos esses que não lhes são permitidos o que, aliás, coloca em causa também a liberdade individual de um homem, condicionando-o (afinal um homem não chora, não é?).

Estes comentários, estas categorias, rótulos, estereótipos, estigmas é aquilo a que eu chamo de pressão social. São pessoas com comportamentos ou características que não estão associadas àquilo que é suposto ser, à normalidade - porque se presume e assume que existe uma. 

O medo do estigma, da discriminação, do fazer parte do outro, pressiona as pessoas para agirem e serem aquilo que é permitido socialmente e que está dentro do padrão de normalidade. E esse medo condiciona a ação das pessoas, leva-as a fazerem e a serem coisas que não querem, com as quais não se identificam, que não as refletem, com receio de serem excluídas socialmente.

Esta pressão é subtil mas é tácita; existe, preexiste, está lá sempre mesmo quando não damos por ela.

O ser mãe é talvez a maior pressão que recai sobre as mulheres. Surge como obrigação social antes de opção. Como se toda a mulher nascesse com predisposição para a maternidade, como se fosse uma característica intrínseca e necessária ao ser mulher. Como para se ser mulher se tenha de ser mãe.

Esta pressão social para a maternidade, ao limitar as opções da mulher, leva muitas mulheres a concretizarem essa tarefa (precisamente por medo da exclusão e discriminação) e traz fenómenos como o arrependimento materno, algo que não me debruçarei aqui (pelo menos para já).

Um dos meus objetivos a nível académico é dissociar a mulher do ser mãe, trazer o debate para o espaço público e combater esta pressão que se impõe às mulheres, à qual nós tanto lutamos com o nosso relógio-biológico, esperando que o tempo não passe tão depressa ou que, pelo menos, a vontade ou a oportunidade de ser mãe chegue mais rápido.

O meu objetivo não é baixar ainda mais a nossa taxa de natalidade - que por si só já é uma das mais baixas da Europa - o que pretendo é ofecerer-nos, às mulheres, a possibilidade de escolhermos livremente o nosso caminho e, caso esse caminho passe pela não-maternidade, oferecer-nos a possibilidade de percorrermos esse caminho sem termos de passar pelos olhares, comentários e disparos dos outros.

O meu objetivo é, sobretudo, mostrar que há, efetivamente, outro caminho. E que esse caminho não é menos feliz que o outro, nem o destino é menos benéfico por uma pessoa não ter tido filhos; porque há outros planos, outras perspetivas, outras formas de viver a vida e, acima de tudo, outros percursos que não passem pela maternidade.

O meu objetivo é, ainda, lutar para que as mulheres não se sintam na obrigação de serem mães. Evitar que as pessoas que não querem ser mães o sejam, porque muito mais do que a não-maternidade, isso sim, é um infortúnio perpétuo.

Se eu pudesse pedir alguma coisa a quem leu este texto, peço que se conhecerem mulheres em idade fértil e em contexto de conjugalidade que não equacionem ser mães, que me escrevam em baixo. Obrigada.

 

 

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