Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

mesmo sítio de sempre.

mesmo sítio de sempre.

o problema está nas perguntas.

"Então e namorado?", "Quando é que sai esse casamento?!", "Não achas que já está na hora de ter filhos?!".

Isto não é só a conversa da treta das tias nos jantares de família. Não é só o previsível. É mais do que um respirar fundo. E mais do que uma voz interior a dizer-nos que eles não fazem por mal.

É pressão social, uma coisa à qual eu também chamo de prisão. Porquê se não tem grades e não nos confina a um espaço?

Porque nos condiciona, nos limita e nos confina ao espaço de uma possibilidade, quando existem tantas outras que podemos seguir.

Um dia, voltei à minha escola básica e estava lá à espera que me entregassem uns papéis. Entretanto comecei a falar com um miúdo (praí de 7 anos) que estava a brincar e, às tantas, perguntei-lhe se ele tinha namorada - aquela coisa estúpida que toda a gente pergunta. O meu espanto foi que ele respondeu com a maior naturalidade: "Não. Tenho namorado".

Não preciso de dizer que me senti estúpida e ridícula mas, mais do que isso, senti-me mal por estar a limitar a opção do miúdo, mesmo que inconscientemente. Assumi que ele tinha de ter namorada porque é rapaz, e nem me lembrei da possibilidade de ele poder (também) gostar de rapazes.

A partir desse dia aprendi a colocar a pergunta de outra forma: "Namoras?" ou "Então e namoros?"

É incrível como uma simples pergunta pode condicionar tanto, e o mesmo acontece com a questão da maternidade.

A maternidade é, sem dúvida, uma das maiores pressões sociais existentes na sociedade. A pressão para a mulher ter filhos é enormíssima, como se as mulheres tivessem uma predisposição natural para a maternidade. Como se as mulheres tivessem todas de gostar de ser mães ou de ter de ser mães. Aliás, como se as mulheres pudessem ser mães.

O Papa Francisco, em 2015, disse que as mulheres que não querem ter filhos são egoístas. Como se o único propósito da existência da mulher fosse procriar ou como se a maternidade fosse uma obrigação moral.

E depois quando uma pessoa assume que não quer ter filhos toda a gente acha que sabe o que é melhor para os outros: "Se não tiveres vais-te arrepender!", "Não queres ter filhos? Sabes que vais ficar sozinha quando fores velha?".

Quando as pessoas não pensam que existem casos de arrependimento materno. Pessoas que, apesar de amarem os seus filhos, detestam o papel de mãe, não se reveem nele e não são felizes naquela situação. Isto não quer dizer que não queiram saber dos filhos, quer apenas dizer que a escolha que eles fizeram vai pesar-lhes para o resto da vida, um sentimento de profundo desconsolo e de perpétua infelicidade, não só porque terão de lidar com as consequências de ter filhos a vida inteira - por cuidarem deles e depois, em muitos casos, cuidarem ainda dos netos - mas também por sentirem que a vida lhes fugiu; que os seus planos e os seus objetivos foram adiados em função de algo para o qual sentem que não as representa - a maternidade.

E as pessoas não são aberrações por isso. Por não quererem casar, por não quererem uma vida conjugal ou por não quererem ter filhos. As pessoas não têm de querer todas o mesmo. 

E é por isso que às vezes o casamento, as uniões conjugais, os filhos surgem da necessidade de se fugir à pressão, de fugir às perguntas, de fazer parte daqui e deixar de fazer parte dos "outros". 

As perguntas das tias, de todos nós e de todos os outros são coação, são opressão e aprisionam as pessoas, às vezes tanto que elas para fugir a essa presão prendem-se noutras coisas.

Eu nunca disse que não ia ter filhos, que nao me ia relacionar com um homem ou com uma mulher eu só gostava que a sociedade não me condicionasse e não questionasse a minha liberdade individual.

Eu só não me quero prender para fugir a outra prisão. Eu gostava mesmo era que não fizessem perguntas.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D