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mesmo sítio de sempre.

mesmo sítio de sempre.

o último voo.

As notícias durante toda esta semana focaram-se no último voo que se despenhou, nos Alpes franceses. Um dia depois o meu irmão foi para Itália e o meu coração já bombeava mais depressa. Para o meu irmão, que já foi a vários países da Europa, já andou pela América do Norte e pela América Latina, uma viagem até Milão não é nada. Mas no ar nada se controla.

Andei duas vezes de avião e detestei. É um sítio desconfortável e claustrofóbico. Onde não existe hipótese de sair na próxima paragem. Uma viagem que para estes, e para tantos outros no passado, se demonstrou sem regresso.

O mais incrível de toda esta loucura de se perder 150 pessoas, reside no facto de esta loucura ter sido um plano de alguém. Acidentes acontecem e há vezes em que ninguém os pode evitar ou prever, mas como é possível uma pessoa querer ficar na história de um atentado à humanidade? De forma tão abrupta, tão penosa, tão cruel, tão desumana.

Hoje saiu a notícia de que existe um vídeo em que se consegue ver o pânico instalado momentos antes do embate do avião da companhia Alemã. Ainda não o lançaram ao mundo e eu por amor de Deus, espero que não o façam. Espero que destruam o vídeo e poupem as famílias e o mundo inteiro de vê-lo. Quem já o viu, conta que é absolutamente incrível o pânico e o desespero que se sentiu. Como não seria?! Como é possível alguém dar a mísera oportunidade a um ser humano de assistir ao seu próprio fim. Ao fim de tudo. Como se a morte já não bastasse por si só. 

Eu penso nisto. Penso se fosse eu a lá estar, e se serei eu algum dia a lá estar. Às vezes penso se no meio daquele desespero, daquela cólera, no meio de todo aquele fim as pessoas em algum momento pensaram que teriam hipótese de sobreviver, ou se facto, em algum momento o ser humano perde de uma forma plena e completa a esperança na vida. Será que ele perde a capacidade de pensar no depois? Será que quem filmou o vídeo estava a pensar em mais tarde, postá-lo no seu próprio facebook? Ou estava completamente convencido com a sua morte.

O que é certo é que nunca se sabe. Porque só seria possível saber com o regresso dos que não voltam.

É no distúrbio de uma pessoa que se perdem 150. E para quem cá fica, fica o vazio para o resto da vida. Porque é uma dor que não tem por onde se pegar. Não há justiça possível. Não há culpados a apurar porque o único culpado que existe, teve precisamente o mesmo fim que todos os outros. Morreu e não volta. Então só há essa dor insuportável. E uma raiva inexplicável por quem cometeu tudo isto deliberadamente e que nunca poderá ser punido - pelo menos nesta vida. É por isto que a fé tem de exitir. Para ajudar a lidar com a finitude. Para ajudar para que quem cá fique, encontre alguma paz numa crença.

Este foi o último voo de regresso dos que não voltam. Dos que viram o vácuo, o negro, o fim, ainda antes dele chegar. 

Sem palavras.

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