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mesmo sítio de sempre.

mesmo sítio de sempre.

Volta.

Desejaste-me um feliz natal sincero, seguramente o mais sincero que já proferiste até hoje. É incrível poder observar que é quando as pessoas não podem ter certas coisas que mais as desejam para os outros, como se o facto dos outros terem aquilo que eles não vão ter, de certa forma, apaziguasse a dor que sentem. Este foi sem dúvida um natal especial, não pela família estar presente, como está sempre, mas porque foi neste natal que se consolidou o sonho da vida dos meus pais. Poder vê-los felizes, radiantes por estarem precisamente onde desejavam estar foi o maior conforto que senti, não só neste natal como também neste ano. Apesar disso, não posso dizer que foi o natal mais feliz que já tive, não foi porque no meu pensamento aparecias sempre tu. Na semana passada pude sentir a tua voz balbuciante, triste e cansada quando dizias: que saudades. Faz dois anos e meio que foste, faz dois anos e meio que não vês Lisboa nem o sítio que nos viu crescer. Pediste-nos para ficarmos contigo a falar até às quatro da manhã, já que a essa hora tinhas de ir para o trabalho e preferias estar connosco o maior tempo possível e ires para o trabalho de direta. Quando disseste isso, senti que aquele miúdo parvo, que só dizia parvoíces e achava que a vida ia ser simples para sempre já não existia mais. A vida moldou-te, obrigou-te a crescer, tirou-te a ingenuidade que eu própria ainda sinto ter. E depois penso que só tens 20 anos, que é injusto tudo o que te estão a fazer, é injusta a tua família. É injusto passares o natal sozinho, triste. Não por não teres qualquer prenda por abrir, mas por não teres uma única pessoa com quem partilhar esse dia, ou essa noite. Disseste que estavas a tentar organizar tudo para voltares o mais depressa possível, mas o dinheiro que se ganha em Inglaterra não é assim tanto face às contas que tens de pagar e cá, sem garantias de trabalho seria complicado construir uma vida. O incrível é que o dinheiro, os ténis, os jogos, os telemóveis, as motas já não importam absolutamente nada. Tu queres voltar por nós. Unicamente por nós. Porque a vida não faz sentido sem família, a vida é escura, sombria, pobre sem família. E a tua família somos nós. Ano após ano. Dia após dia. Sei que o rapaz que partiu para Inglaterra à dois anos e meio atrás em parte já não existe mais. Sei que nessa altura que partiste estávamos chateados, não nos falávamos à meses, mas a distância voltou a juntar nos e mostrou nos aquilo que realmente importa. E apesar de não seres em parte aquele rapaz que outrora conheci, sei tão bem que a tua essência continua a ser feita da mesma matéria. Volta meu amigo. A distância mata-me por saber que não estás feliz. Vou acabar a carta o mais depressa que conseguir. Quero ser eu a ir buscarte ao aeroporto. Porque se à dois anos e meio, quando entraste no avião não sabias para o que ias, agora sabes precisamente o que te espera: a tua família. Nada é mais reconfortante que isso.

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